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Após anos de estiagem, uma em cada três represas do Nordeste está seca

JOÃO PEDRO PITOMBO, DE SALVADOR - FOLHA DE S. PAULO
 
Em 18 de maio de 2009, os sertanejos do Ceará tiveram motivo para festa. Naquele dia, o açude do Castanhão –maior já construído no Nordeste, com capacidade de 6,7 bilhões de metros cúbicos de água– atingiu a marca histórica de 97,64% de volume útil e o sertão virou mar.
 
Em 7 novembro passado, o açude registrou uma nova marca histórica. Quase 14 anos depois de atingir o seu menor volume, o Castanhão chegou ao nível mais baixo desde a inauguração em 2002, com 3,5% de sua capacidade.
 
Desde então, todo dia é dia de recorde. Há dois meses, o açude seguiu numa rota decrescente até a chegar à marca de 2,37% da capacidade, registrados nesta segunda-feira (22). O reservatório atingiu o volume morto, com a água abaixo do nível do ponto de captação.
 
O cenário do Castanhão reflete a situação dos demais reservatórios e açudes do semiárido nordestino.
 
Segundo dados da ANA (Agência Nacional de Águas), dos 436 reservatórios da região usados exclusivamente para armazenamento de água e com medições recentes, 240 (55%) estão com o nível inferior a 10% de sua capacidade. Destes, 143 –quase um terço do total– estão completamente vazios.
 
Os números não incluem os reservatórios ligados ao Sistema Interligado Nacional, como os do rio São Francisco, usados prioritariamente para geração de energia elétrica.
 
Além do Castanhão, outros grandes reservatórios como Orós (CE), Engenheiro Francisco Saboia (PE) e o sistema Coremas-Mãe D'água (PB) estão com nível abaixo de 10% da capacidade.
 
A barragem Armando Ribeiro Gonçalves, maior do Rio Grande do Norte e que comporta até 2,4 bilhões de metros cúbicos de água, chegou a 11,32% de sua capacidade e entrou no volume morto.
 
INSEGURANÇA HÍDRICA
 
A seca dos reservatórios é resultado da estiagem que atinge o semiárido nordestino nos últimos sete anos e deixou rastro de quebras de safra nas lavouras, perda dos rebanhos e falta de água nas cidades.
 
Mesmo chuvas registradas no ano passado em parte do semiárido não foram suficientes para garantir a segurança hídrica da região.
 
Exemplo disso é a barragem do Prata, uma das que abastece o agreste pernambucano, que saiu do volume morto e alcançou 43% de sua capacidade com as chuvas de maio e junho de 2017. Mesmo assim, cidades da região ainda chegam a ficar 28 dias sem água para cada dois de abastecimento.
 
Isso porque a barragem de Jucazinho, maior daquela região, está em colapso. Há pouca oferta de água para uma das regiões do sertão mais densamente povoadas no semiárido.
 
"Somos a região que tem mais gente e menos água no país. É um problema que a gente convive desde sempre, mas se aprofundou com a última seca", afirma Raquel Lyra (PSDB), prefeita de Caruaru, maior cidade do agreste com 350 mil habitantes.
 
Além da falta de água nas casas dos moradores e para a lavoura na zona rural, o racionamento tem afetado a economia da cidade, que sedia o segundo polo de confecções do país. A produção de jeans, que demanda grande quantidade de água para as sucessivas lavagens do tecido, é uma das mais prejudicadas.
 
A adutora do Agreste, que trará água do rio São Francisco para a região, anda a passos lentos com o estrangulamento de repasses federais. O governo estuda uma solução paliativa até que a obra fique pronta.
 
"Vamos ter que trazer água da Paraíba, de uma área que foi perenizada com a transposição [do rio São Francisco]", diz Ricardo Tavares, presidente da Compesa, companhia de água de Pernambuco.
 
SEM COLHEITA
 
Em outros Estados, a situação se replica. No Ceará, há 39 municípios estão em situação de racionamento. Destes, 21 cidades só têm abastecimento garantido até o fim de janeiro e outras 18 só têm água suficiente até o fim de fevereiro, caso não chova.
 
No Rio Grande do Norte, dos 47 açudes monitorados pelo governo, 35 estão no volume morto ou completamente vazios. De cada três cidades do Estado, duas estão em situação de racionamento ou colapso total no abastecimento.
 
Já no sertão baiano, a região do sisal e da Chapada Diamantina são as mais prejudicadas com o esvaziamento de barragens do Apertado, Pedras Altas e São José do Jacuípe, resultando em racionamento em cidades como Seabra e Senhor do Bonfim.
 
Caminhões-pipa são utilizados para garantir o abastecimento das casas, fazendo a chamada "indústria da seca" funcionar a todo vapor. Somente o governo federal gastou R$ 90 milhões no ano passado com caminhões-pipa, que abasteceram 818 municípios.
 
Enquanto a solução não vem, cidades chegam a ficar cinco anos sem água nas torneiras, caso de Jataúba, município de 17 mil habitantes na fronteira entre o agreste e o sertão pernambucano.
 
Dono de um lote na zona rural da cidade, o agricultor Fernando Santiago, 32, não sabe o que é colher uma safra há oito anos. Desde então, a única coisa que brotou em sua roça é palma, espécie resistente à seca usada na alimentação de bodes e cabras.
 
"A única coisa que nos salva são os rebanhos de caprinos e ovinos. São animais rústicos que se adaptam bem ao clima seco. No mais, estamos praticamente sem ter como trabalhar", diz Fernando, que chega a pagar até R$ 200 por um caminhão-pipa e ter água em casa para beber e cozinhar. 
 
Matéria publicada na Folha de S. Paulo.
 
 


Comentários

imagem de Central RS Desentupidora
Enviado por Central RS Dese... em ter, 30/01/2018 - 16:00

Aqui no Sul este ano felizmente não temos enfrentado secas tão fortes. Porem quando temos que enfrentar este clima de seca não damos conta da quantidade de água solicitada para entrega em caminhão pipa para abastecimento de caixa de água.