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Análise da pesquisa “Mobilidade Urbana na Cidade”

Levantamento integra a séria “Viver em São Paulo”, que foi iniciada este ano e mensalmente tem divulgado dados sobre a percepção dos paulistanos em relação a temas importantes que afetam a vida na capital paulista. 

Por Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo
 
Poluição
 
A pesquisa “Mobilidade Urbana na Cidade”, divulgada nesta terça-feira (18/9) pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência, revela que a maioria dos paulistanos tem o hábito de se informar sobre a qualidade do ar com alguma frequência: 23% dos entrevistados afirmam que sempre se informam sobre esse tema e 39% dizem que se informam de vez em quando. Outros 13% raramente se informam sobre assunto e 24% nunca se informam. 
 
Embora um quarto da população não se informe nunca sobre a qualidade do ar na cidade, chama a atenção o fato de a maioria dos paulistanos (62%) ter o hábito de se informar sobre a poluição na cidade.
 
Trânsito
 
O levantamento mostra uma leve melhora no tempo médio diário gasto pelo paulistano no deslocamento para realizar a sua atividade principal. O índice, que era de 2h00 em 2017, oscilou para 1h57 neste ano.
 
Os moradores das zonas Norte e Sul da capital paulista são os que levam mais tempo para realizar esses deslocamentos, registrando 2h05 nas duas regiões.
 
A melhora também é percebida pelos paulistanos em relação ao tempo médio gasto em todos os seus deslocamentos diário. O índice segue diminuindo desde 2016, quando registrou 2h58. No ano passado, o tempo gasto ficou em 2h53 e, agora, atinge 2h43. Porém, o melhor indicador continua sendo o verificado em 2015, com 2h38.
 
Assim como no deslocamento principal, os moradores das regiões Norte e Sul são os que gastam mais tempo em todos os deslocamentos: 2h49 e 2h56, respectivamente. Já os moradores das regiões Central e Oeste são os que gastam menos tempo nesse tipo de deslocamento, com 1h58min e 2h13min, respectivamente. Chama a atenção o fato de nessas regiões o tempo médio gasto pelos seus moradores para todas as atividades diárias ser quase 1 hora menor do que as demais regiões. 
 
Outro ponto de destaque com relação a isso é que nas regiões com maior tempo de deslocamento (Norte e Sul), o sistema de metrô é pior distribuído quando em comparação com as demais áreas da cidade. Isso nos leva a concluir que a ampliação da rede de metrô na cidade pode ser um grande indutor da redução do tempo gasto pelos paulistanos no trânsito da cidade, não só por sua velocidade e por não se misturar com os veículos sobre pneus, mas também por ser um meio de transporte de alta capacidade e potencialidade de se integrar e alimentar outros meios de transporte, como os ônibus e ciclovias, por exemplo.
Uso do transporte público
 
O ônibus continua sendo o principal meio de transporte dos paulistanos, com 43% de menções. Em segundo lugar está o carro, que registra 24%. Em seguida aparece o metrô, com 12%. Os paulistanos que afirmam fazer o seu principal deslocamento a pé representam 7%. Outros 5% afirmam que seu principal meio de transporte é o particular, por meio de aplicativos, 3% dizem ser o trem, 2% a bicicleta e 1% o táxi. 
 
Destaca-se nesse item da pesquisa o fato de as oscilações em relação ao ano anterior denotarem certa tendência de esvaziamento do transporte público em detrimento do transporte particular. Se somarmos o número de paulistanos que afirmam que seu principal meio de transporte é coletivo, chegamos a 59% em 2018. No entanto, quando analisamos esse mesmo grupo para o ano de 2017, observamos o índice de 65%. Isto é, em 2017 65% dos paulistanos utilizavam transportes coletivos (ônibus, metrô, trem e fretado) como meio de locomoção principal na cidade. Porém, em 2018, esse percentual cai para 59%. 
 
Por outro lado, fenômeno inverso acontece com quem utiliza transporte privado. Se somarmos os paulistanos que afirmam utilizar preferencialmente o transporte privado na cidade (carro, transporte particular por aplicativo, táxi e moto), chegamos a 30% de entrevistados em 2018. Porém, esse mesmo grupo representava 25% de entrevistados em 2017. Ou seja, a utilização de transporte coletivo na cidade cai 6% (de 65% para 59%), quando comparamos 2017 com 2018. Já a utilização do transporte particular sobe 5% (de 25% para 30%) no mesmo período. Isso denota que, por mais que seja ainda uma oscilação pequena nos valores apontados pela pesquisa, pode estar havendo uma “fuga” de usuários dos transportes públicos e coletivos para a utilização de transportes privados e particulares, o que não é um bom sinal para a mobilidade urbana em São Paulo.
 
Os dados relativos à frequência com que os paulistanos utilizam o transporte público corroboram essa avaliação, de esvaziamento do coletivo em detrimento do particular. Em 2017, 84% dos paulistanos afirmavam utilizar o transporte público com alguma frequência. Este ano, esse índice cai 4%, chegando a 80%. A mesma tendência não acontece com o carro, pois se mantém estável o percentual de paulistanos que afirmam utilizá-lo com alguma frequência: 72% nos dois anos. 
 
Ônibus
 
Mesmo observando certa tendência de “fuga” de passageiros do transporte público para o particular, cerca de metade da população paulistana ainda utiliza ônibus municipais de uma a cinco vezes por semana, o que faz desse meio de transporte o principal na cidade. Mas a tendência de redução de utilização desse meio de transporte também aparece nesse item da pesquisa. Comparando 2017 com 2018, oscilou de 11% para 10% o índice de paulistanos que utilizam ônibus 7 dias por semana; de 18% para 16% o dos que utilizam 5 dias por semana; e de 10% para 9% o dos que usam esse modal de transporte 3 dias por semana. Se manteve estável, em 10%, o percentual de paulistanos que afirmam utilizar o ônibus 6 dias por semana e, em 8%, o daqueles que dizem utilizá-lo 4 dias por semana. O crescimento nessas taxas, quando comparamos o ano passado com o atual, se dá apenas nos grupos que utilizam os ônibus com menor frequência. Por exemplo, subiu de 7% para 9% o índice de paulistanos que o utilizam 2 dias por semana, e de 8% para 10% o daqueles que não utiliza o ônibus como meio de transporte na cidade. Isso pode significar que o paulistano está usando menos o ônibus como meio de transporte de maior frequência.
 
A tendência de esvaziamento na utilização de ônibus na cidade pode ser também explicada pelo nível de insatisfação que a população paulistana demonstra em relação à qualidade do serviço. Quando analisamos os principais problemas dos ônibus da capital, a menção à lotação cresce e segue como o principal motivo para a não utilização deste meio de transporte. 
 
Em seguida aparecem as alternativas uso do carro e demora do trajeto do ônibus. Isto é, para o grupo de paulistanos que não utilizam o transporte público, os principais motivos da não utilização são a lotação (com 37% de menções), a preferência por utilizar o carro (com 32% de menções) e a demora do trajeto (com 31% de menções). 
 
Chama a atenção neste item da pesquisa o fato de, em relação ao ano anterior, ter crescido o percentual de paulistanos que afirmam não utilizar o transporte público devido à lotação e demora no trajeto dos ônibus. Em 2017, 31% dos pesquisados diziam que a lotação os fazia não utilizar os ônibus na capital e 24% alegavam a demora no trajeto. No levantamento deste ano, esses índices sobem para 37% e 31%, respectivamente. Isso denota que a qualidade dos ônibus apresenta piora, na percepção dos paulistanos que não o utilizam como meio de transporte principal, e isso afasta essa população do transporte público e os faz utilizar com maior frequência o transporte particular.
 
Porém, entre os paulistanos que utilizam os ônibus como meio de transporte principal, observamos que os principais problemas apontados por este grupo são também a lotação (com 25% de menções) e o preço da tarifa (com 20% de menções). Esses são os dois itens que os paulistanos assinalam como os principais problemas a serem enfrentados pelo poder público, quando o assunto é ônibus municipal. Somado a isso, destaca-se também que a percepção dos paulistanos sobre esses problemas apresenta piora. Para 54% dos entrevistados, a lotação dos ônibus em São Paulo aumentou em relação aos últimos 12 meses. Para 42%, aumentou também o tempo de espera pelos ônibus nos pontos ou terminais da cidade. Outros 39% afirmam que aumentou tempo de duração da viagem. Tudo isso contribui para reafirmar que a sensação do paulistano, de piora na qualidade do serviço de transporte público, estimula uma opção pelo transporte particular em detrimento do coletivo.
 
Com relação ao tempo de deslocamento somente por ônibus na cidade, a pesquisa revela que, em média, a maioria dos paulistanos (88%) que usa transporte público todos os dias ou quase todos dias leva até 10 minutos de casa até o ponto de ônibus. Além disso, o tempo médio de espera no ponto de ônibus é de 18 minutos. Se somarmos esses tempos ao gasto no deslocamento geral na cidade, que é de 2h43min, concluímos que, para o grupo de paulistanos que utilizam o ônibus como meio de transporte principal, o tempo gasto no trajeto total pode chegar a 3h11min diários.
 
Mais da metade dos entrevistados (52%) diz que deixa de realizar visitas e atividades de lazer por causa do preço da passagem dos ônibus. Além disso, 51% dos paulistanos deixam de ir a parques, cinemas e outras atividades de lazer pelo mesmo motivo, enquanto 34% afirmam que deixam de fazer consultas médicas e exames.
 
Assédio sexual
 
Cerca de metade dos paulistanos avalia de maneira negativa a atuação do poder público no combate aos casos de assédio sexual no transporte público: 51% a classificam como ruim ou péssima; 30% dizem que é regular; e apenas 13%, ou 1 em cada 10 paulistanos, consideram essa atuação ótima ou boa
 
Uso do carro
 
A pesquisa revela que o uso do automóvel com alguma frequência se mantém em relação a 2017. No entanto, cai a predisposição dos usuários frequentes de carro de deixar de usá-lo. Por exemplo, entre o grupo de paulistanos que utiliza carro todos ou quase todos os dias, em 2017, 51% diziam que com certeza deixariam de utilizá-lo caso houvesse melhores alternativas de mobilidade na cidade. Esse percentual cai para 41% em 2018. Ao mesmo tempo, cresce o percentual de entrevistados que afirmam que provavelmente deixariam o carro para utilizar o transporte público, de 29% para 32%. 
 
Bicicleta
 
A pesquisa revela que a segurança dos ciclistas segue como ponto prioritário para que aqueles que nunca utilizam bicicleta passem a utilizá-la na cidade: 30 % desses entrevistados assinalam essa preocupação; 18% dizem que seria preciso construir mais ciclovias; e outros 17% afirmam que utilizariam a bicicleta se os percursos de seus deslocamentos fossem menores. Somado a isso, furtos, roubos e desrespeito dos motoristas e motociclistas seguem figurando como os principais motivos que afetam a vontade dos paulistanos de usar as ciclovias e ciclofaixas da cidade. Para 37% dos pesquisados, furtos e roubos são os itens que mais os desestimulam a utilizar esse meio de transporte. Enquanto o desrespeito dos motoristas e motociclistas é o principal motivo para 29% dos entrevistados. 
 
A manutenção das ciclovias é um item bastante mal avaliado pelos paulistanos. Cerca de metade deles (48%) considera ruim ou péssima a manutenção das ciclovias nos últimos 12 meses.
 
A Agenda de Mobilidade Urbana
 
Dentre as propostas com maior favorabilidade dos paulistanos para a melhoria da mobilidade urbana em São Paulo, destacam-se: aplicação de multa para veículos que param em cima da faixa de pedestres (87% de favorabilidade); construção e ampliação de corredores e faixas exclusivas de ônibus (84%); construção e ampliação das ciclovias e ciclofaixas (78%); aos domingos, utilização exclusiva de ruas e avenidas, como a Avenida Paulista, para lazer e circulação de pedestres e ciclistas (76%); substituição das vagas para veículos particulares por áreas de uso público, como faixas de ônibus, alargamento de calçadas, ciclovias, parklets (61%); proibição de estacionamento de veículos nas ruas e avenidas do centro expandido da cidade (56%); e a redução das velocidades praticadas nas ruas e avenidas da cidade (51%). 
 
As medidas para a melhoria da mobilidade em São Paulo com menos apoio da população são a aplicação de multas em pedestres (42% de favorabilidade) e aumentar o rodízio de carros para dois dias por semana (35%).
 
Com relação ao grupo que nunca usa o transporte público como meio de transporte, a melhoria nas condições físicas e mais conforto são as medidas que transformariam esses paulistanos em novos usuários dos ônibus: a alternativa é assinalada por 34% dos entrevistados desse universo. A diminuição do tempo de espera do transporte público coletivo seria a principal medida de estímulo ao uso do transporte público para 31%.
 
Chama a atenção o fato de 88% dos paulistanos se sentirem pouco ou nada seguros ao andar a pé pela cidade. Apenas 1 em cada 10 paulistanos afirmam se sentirem seguros ou muito seguros como pedestres.
 
Metade dos paulistanos (52%) afirmam terem sido afetados pelas mudanças realizadas na política de benefícios e no sistema de transporte público da cidade nos últimos 18 meses. Sendo que, desse grupo: 16% dizem ter sido afetados pela retirada de veículos das linhas de ônibus que costumam utilizar (menos veículos na linha); 16% foram afetados pelo corte de linhas de ônibus municipais; 15% pela mudança de itinerário ou rota das linhas de ônibus; 14% pelas mudanças no bilhete único mensal (valor, número de viagens, etc.); 8% pela exigência de cadastro para uso do Bilhete Único ou pelo fim do Bilhete Único Anônimo; e 7% relatam terem sido afetados pelas alterações nas regras da gratuidade do transporte público para os estudantes.
 
O transporte público como um direito social garantido pela Constituição Federal é um fato desconhecido por sete em cada dez moradores de São Paulo. Apenas 26% dos entrevistados afirmam que tinham conhecimento desse direito social. 
 
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