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Como a arquitetura urbana pode combater a solidão

Estudos do campo da neuroarquitetura têm dado contribuições importantes para compreender como as edificações fazem as pessoas se sentir.

A solidão se tornou uma epidemia global e afeta países como Japão, Austrália e Reino Unido. O isolamento social crônico tem impactos na saúde física e mental, sendo um fator de risco para uma série de doenças: fisiologicamente, alguns de seus impactos são aumentar o nível de cortisol, hormônio associado ao estresse, e enfraquecer o sistema imune.

Com uma porcentagem cada vez maior da população mundial vivendo em cidades, a solidão contemporânea está largamente conectada à experiência urbana.

A relação pode parecer contra-intuitiva: viver em um ambiente mais populoso deveria aumentar a probabilidade de interação social. Embora a hipótese possa ser verdadeira para as interações superficiais, são as mais profundas e significativas que fazem diferença para a saúde mental, e estas podem ser mais raras em cidades. 

“A solidão nem sempre resulta de estar sozinho; está relacionada a quão socialmente conectados nos sentimos às pessoas ao nosso redor – e é frequentemente um produto das casas onde moramos”, define a arquiteta Grace Kim, em uma palestra para o Ted Talks de agosto de 2017. Estudos já mostraram que a arquitetura e a configuração do espaço urbano afetam o humor e o bem-estar das pessoas, e que células cerebrais especializadas da região do hipocampo estão sintonizadas à geometria e ao arranjo dos espaços. 

O campo de estudo chamado de neuroarquitetura agrega conhecimentos de arquitetura e urbanismo, engenharia, neurociência e psicologia. Um de seus objetivos é contribuir para que arquitetos projetem edificações mais adequadas ao bem-estar humano. 

A arquitetura que gera solidão A importância do design urbano para a saúde mental vai muito além de soluções estéticas que provoquem bem-estar (efeito desencadeado por áreas verdes e fachadas complexas e interessantes, por exemplo). Crescer numa cidade pode aumentar as chances de alguém desenvolver distúrbios mentais como esquizofrenia, depressão e ansiedade crônica. 

E a principal razão para isso é a condição chamada por pesquisadores de “estresse social”: a ausência de laços e coesão social entre as pessoas nos bairros onde vivem. Há exemplos de como a arquitetura pode desfavorecer a conexão entre as pessoas em determinados projetos de habitação social modernistas do século 20, construídos em locais isolados e dotados de espaços públicos mal pensados. 

Um deles, desenvolvido nos Estados Unidos na década de 1950, se tornou conhecido pela disfunção social, criminalidade, segregação e pobreza que acabou por incitar. O complexo residencial Pruitt-Igoe foi inaugurado em 1955 na cidade de St. Louis, no estado do Missouri, e era composto de 33 prédios. 

Recebeu críticas por criar grandes espaços vazios entre as torres, que desencorajavam a criação de um sentimento de comunidade entre os moradores, principalmente a partir do aumento das taxas de criminalidade. O complexo foi dinamitado e demolido na década de 1970.

No Brasil, grandes conjuntos habitacionais públicos, como o Cingapura, construído na década de 1990 em São Paulo, são alvo de problemas semelhantes. 

Arquitetura anti-solidão 

Projetos capazes de combater a solidão nas cidades são os que apresentam características que agregam as pessoas, encorajando-as a interagir, brincar e se conectar de diferentes maneiras. 

O sociólogo americano William Whyte (1917-1999) atuou como consultor em vários projetos de planejamento urbano, particularmente na cidade de Nova York, e realizou um estudo pioneiro sobre o comportamento de pedestres e a dinâmica urbana, chamado “Street Life Project” (Projeto vida nas ruas, em tradução livre). 

O conselho de Whyte para os planejadores urbanos era dispor objetos e equipamentos pelo espaço urbano – como bancos, por exemplo – de maneira a aproximar fisicamente as pessoas umas das outras, tornando o início de uma conversa entre desconhecidos mais provável. Esse processo foi chamado por Whyte de “triangulação”.  

Para a arquiteta Grace Kim, a solução para a solidão nas cidades não está somente nos espaços públicos, mas na maneira de habitar e na criação de vizinhanças mais coesas. Ela defende o “cohousing”: trata-se de uma “vizinhança intencional”, na qual as pessoas se conhecem e cuidam umas das outras. 

A ideia é que cada pessoa ou família tenha sua casa, mas compartilhe espaços significativos para a vida cotidiana, como grandes cozinhas comunitárias, onde as refeições são preparadas e consumidas em conjunto. Segundo as pesquisas de Kim, quando as pessoas comem juntas, naturalmente criam laços e planejam fazer outras atividades juntas, aumentando o nível de conexão social entre elas. 
Enriquecer os espaços públicos de forma a amenizar a solidão não irá eliminá-la completamente das cidades, mas pode fazer com que seus habitantes se sintam mais engajados socialmente e confortáveis com o entorno, segundo pondera uma reportagem da BBC. 

“Viver entre milhões de estranhos é uma situação muito pouco natural para um ser humano. Uma das funções de uma cidade é acomodar esse problema”, disse à BBC Collin Ellard, pesquisador do impacto psicológico do design urbano na Universidade de Waterloo, no Canadá. 

Para Ellard, o desafio é construir um ambiente em que as pessoas tratem umas às outras com gentileza, mesmo na configuração estranha em que a cidade as coloca. Segundo ele, falar com um estranho se torna mais provável quando as pessoas se sentem bem nesse ambiente.

Matéria originalmente publicada no jornal Nexo