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“A desigualdade tem que se tornar algo inaceitável para a maioria da população”

Ideia foi defendida por Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil e conselheiro da Rede Nossa São Paulo, durante o evento de apresentação do Mapa da Desigualdade da Cidade  

Por Airton Goes, da Rede Nossa São Paulo

Em debate realizado no evento de apresentação da nova edição do Mapa da Desigualdade da Cidade, o presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil e conselheiro da Rede Nossa São Paulo, Oded Grajew, defendeu a necessidade de se divulgar ao máximo os dados do estudo, que revela diferenças brutais entre as regiões da cidade, e estimular o debate sobre o tema. 

“Essa enorme desigualdade tem que se tornar algo intolerável, pois as coisas só mudam quando a maioria da população sente que elas são inaceitáveis”, afirmou. 

Realizado nesta quarta-feira (28/11), no auditório da FESPSP - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o debate ocorreu após o coordenador de projetos da Rede Nossa São Paulo, Américo Sampaio, apresentar os dados do Mapa da Desigualdade. 

Após explicar que o estudo deste ano possui 53 indicadores das mais diversas áreas, como saúde, educação, habitação, meio ambiente e trabalho e renda, ele destacou alguns exemplos de diferenças chocantes existentes na cidade. 

No Jardim Paulista, região nobre da Cidade, os moradores vivem, em média, até os 81 anos de idade. Por outro lado, na Cidade Tiradentes, no fundão da zona leste, a idade média dos moradores ao morrer é de 58 anos, ou seja, uma diferença de 23 anos. 

O índice de gravidez na adolescência no mesmo Jardim Paulista, onde apenas 0,683% das gestantes têm menos de 19 anos, é 25 vezes menor que em Parelheiros, região do extremo sul da cidade em que esse índice sobe para 17%. 

Confira aqui a apresentação do Mapa da Desigualdade da Cidade 2018.  

Veja também o estudo completo

Sampaio relatou ainda que, desde 2012, a Rede Nossa São Paulo elabora e divulga anualmente o Mapa da Desigualdade da Cidade. Segundo ele, o problema é estrutural e está congelado. Ou seja, não tem diminuído. “Os governos municipais de diversos partidos não têm conseguido lograr êxito na redução das desigualdades”, concluiu.

Na avaliação da jornalista Semayat Oliveira, outra participante do debate, a desigualdade é também um problema de raça. “Os números [do mapa] não deixam dúvida que a população negra mora nas periferias da cidade”, argumentou ela, que é moradora do Jardim Miriam, bairro periférico da zona sul de São Paulo. 

Cofundadora do coletivo jornalístico Nós, mulheres da periferia, Semayat considera que a cidadania e a democracia não funcionam para a maioria da população do país, e faz um alerta: “Estamos vivendo um momento em que as cotas para os negros e pobres nas universidades está em risco”.

Já para Dirce Koga, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas (NEP) Cidades e Territórios da PUC São Paulo, o desafio mais urgente, principalmente em função do momento que o país está vivenciando, é fazer com que os gestores públicos entendam que não sabem tudo. “É a população, em suas experiências e vivências, é que tem as respostas”, argumentou.

Para ela, discutir a desigualdade, a partir da sua concretude, é fundamental. “Precisamos, mais do que nunca, trazer a realidade de nossas cidades para o debate.”

 

O debate foi mediado pelo coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão, que destacou a importância dos dados, como os divulgados pelo Mapa da Desigualdade, no aprimoramento da democracia e da participação social. “O desejo da sociedade e os dados da realidade constroem uma base muito importante para podermos avançar em políticas públicas”, ponderou. 

Ele lembrou de um desejo acalentado pela Rede Nossa São Paulo há vários anos. “Estamos dialogando com a Prefeitura e o Tribunal de Contas do Município, para que em breve possamos ter um Mapa da Desigualdade com a distribuição per capta do orçamento em cada distrito da cidade.”

O principal valor da democracia é a igualdade

Um dos destaques do evento foi a fala do cientista político e professor da FESPSP - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Aldo Fornazieri, ao dar as boas-vindas ao público que lotou o auditório da entidade. 

“Esse papel [exercido pela Rede Nossa São Paulo e outras organizações da sociedade civil], de mostrar a realidade e a desigualdade e, ao mesmo tempo, ser crítico, é fundamental para que a democracia se desenvolva”, explicou ele. 

Na opinião de Fornazieri, “o principal valor da democracia é a igualdade, a igualdade efetiva”. Se não há igualdade, segundo o professor, não há direitos. “E a democracia é um regime de direitos”, complementou.

Ele denunciou que 106 milhões de pessoas no Brasil – pouco mais da metade da população – vivem com até um salário mínimo mensal. “Essas pessoas não têm direito de escolha e não podem decidir o seu destino”, lamentou.  

Leia também: Mapa da Desigualdade revela diferenças brutais entre as regiões da cidade

Confira a repercussão na mídia:

Mapa da Desigualdade: da zona leste a a oeste faltam hospitais públicos e empregos (SPTV)

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