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Europa pedala com menor esforço

Por Danny Hakim

Acompanhada por um fraco zumbido elétrico, Iris Marossek pedala sua bicicleta entre os blocos de apartamento no centro da velha Berlim Oriental, entregando cartas para 1.500 pessoas por dia. Pintada de amarelo e preto como uma abelha, sua bicicleta aponta para o passado e o futuro. Ela é curvada como a imagem escura de um chifre retorcido, de volta aos séculos passados, quando os carteiros alemães avisavam todos de sua chegada. Porém, as baterias colocadas sob o selim revelavam que aquela era mais do que uma bicicleta normal.

Marossek pedalava uma das 6.200 bicicletas elétricas a serviço do Deutsche Post, o serviço postal alemão. As bicicletas elétricas contam com motores que ajudam o ciclista a pedalar e têm se tornado populares em países com muitos ciclistas, como a Alemanha, atraindo usuários mais velhos, empresas de entrega e ciclistas que não querem suar. "Elas realmente são boas e só estão melhorando", afirmou Marossek. "Você não fica tão exausto quanto ficaria se estivesse em uma bicicleta convencional".

Com dezenas de milhares de bicicletas rodando nas ruas da China, as vendas também crescem na Europa, especialmente nos países do norte, onde a tradição do ciclismo é antiga. Em alguns mercados, as bicicletas elétricas são as únicas cujas vendas não param de crescer.

Há cerca de 250.000 nas ruas da Suíça, de acordo com a Federação Europeia dos Ciclistas. Na Alemanha, a venda de bicicletas caiu 5,5% no ano passado, mas a venda de bicicletas elétrica – muito mais caras – cresceu quase 8% e agora corresponde a 11% do mercado. Na Holanda, que conta com o maior número de bicicletas per capita da Europa, o mercado das unidades tradicionais caiu um pouco no ano passado, mas as vendas de bicicletas elétricas cresceram mais de 9%.

Tradição

Até o momento, o crescimento parece estar circunscrito a países com uma longa tradição ciclística. Na China, os consumidores frequentemente utilizam bicicletas elétricas com baterias automotivas – um crime para os ambientalistas – ao invés de mobiletes, e também fizeram manchete por aumentarem o número de acidentes no país, famoso por suas ruas perigosas. Na Europa, as bicicletas elétricas são mais caras e fazem parte de uma evolução do mercado tradicional.

Em outras áreas, elas ainda representam um nicho. Os Estados Unidos ainda estão longe de adotarem as bicicletas elétricas, e no estado de Nova York, elas ainda são regulamentadas como motocicletas, o que dificulta a adoção em massa.

Com o mercado evoluindo rapidamente, vários fabricantes – empresas que vão da europeia Accell Group, a exportadoras chinesas e até mesmo gigantes do automobilismo – começaram a competir. A marca Smart, da Daimler oferece financiamento a zero por cento para a compra de sua bicicleta elétrica de US$ 3 mil na Inglaterra, ao passo que a BMW apresentou este ano sua bicicleta elétrica por US$ 3,6 mil.

As margens de lucro mais altas salvaram muitas lojas de bicicletas nos últimos anos. Uma bicicleta elétrica típica é vendida por cerca de US$ 2,7 mil na Europa, afirmam varejistas. O preço médio das bicicletas, que pode subir caso elas contem com motores, chega a US$ 1,3 mil, de acordo com a federação. "As vendas cresceram de verdade nos últimos seis ou sete anos", afirmou Lars van der Wansem, gerente de produtos da revista Bike Europe, acrescentando que "Holanda, Dinamarca, e norte da Alemanha" estão na vanguarda das vendas.

Na Alemanha, onde são especialmente populares, os correios costumam utilizá-las em rotas mais longas ou íngremes. Elas também facilitam o trabalho dos funcionários mais velhos. "Notamos que alguns dos nossos funcionários não estavam ficando mais jovens, e nos perguntamos como poderíamos facilitar a vida deles", afirmou Frank Kolaczinsky, chefe de Marossek.

"Eles também suam", afirmou Marossek com um sorriso franco, em pé ao lado de sua bicicleta, próxima a uma clínica de saúde em sua rota.

Hotéis chiques como o Hotel New York, em Rotterdam, alugam pequenas frotas de bicicletas elétricas. Na Au Guidon Vert, uma pequena bicicletaria no bairro de Etterbeek, em Bruxelas, o dono, Nicolas De Keghel, afirmou que agora, uma em cada quatro bicicletas que vende é elétrica, o que representa metade de seu faturamento.

Comodidade

Uma bicicleta elétrica feita pela Velo de Ville, uma marca alemã, estava em promoção por 2.150 euros, ao lado de uma bicicleta comum da mesma empresa que era vendida por US$ 940. Um motor circular feito pela Bosch, a gigante das peças automotivas, foi colocada entre os pedais.

Para os compradores que usam a bicicleta para ir ao trabalho, não precisar suar é um fator muito importante.

Noel Regan, um dos clientes de De Keghel, comprou uma bicicleta elétrica da Velo de Ville há cerca de um ano. Regan, de 35 anos, é irlandês e trabalha para uma associação da indústria energética em Bruxelas.

"Eu tenho uma bicicleta comum", afirmou Regan, que pagou cerca de 4 mil euros pela bicicleta elétrica. "Mas queria um meio de transporte que pudesse me levar para o trabalho sem que eu chegasse todo suado".

Sua bicicleta demora cerca de uma hora para recarregar e ele consegue fazer o trajeto quatro vezes antes de precisar de recarga. "Comprei uma bem cara, mas acho que valeu a pena", afirmou. "Ela faz com que eu volte para casa mais animado".

Outros veem a bicicleta elétrica como uma forma de fugir do trânsito.

David Stellini comprou a sua recentemente, com espaço para levar seus dois filhos pequenos para passear. Ele é porta-voz do Partido Popular Europeu, o maior partido de centro-direita no parlamento, e costumava ir de carro até o trabalho.

O trânsito causado pela recente visita do presidente Barack Obama fez Stellini, de 37 anos, mudar de ideia. Ir ao trabalho "levava umas duas horas, duras horas e meia, embora eu viva a apenas 20 minutos do Parlamento", afirmou.

"Quando você compra uma bicicleta de carga, sabe que vai precisar de um motor, especialmente para enfrentar o terreno acidentado de Bruxelas", afirmou. "Eu poderia ter comprado uma bicicleta de carga que não fosse elétrica, mas tentei usar a minha com a eletricidade desligada, e é muito mais difícil".

Desempenho

Na Europa, elas são o último sinal da divergência entre o norte e o sul, já que os mercados fragilizados do sul reagiram com frieza às bicicletas elétricas por conta dos preços altos, afirmam executivos. O setor não foi para a frente em países como a Itália e a Espanha, ao passo que na França, as vendas de bicicletas eletrônicas cresceram mais de 17% no ano passado, embora o ponto de partida não fosse expressivo; as vendas chegaram a 56.000 bicicletas elétricas, comparadas a 410.000 vendidas na Alemanha.

"Ir para a Itália para estabelecer o setor das bicicletas elétricas, além de suas cidades mais ricas, como Milão, seria loucura", afirmou Kevin Mayne, diretor de desenvolvimento da federação de ciclistas.

"Na Holanda, ou na Alemanha, as pessoas estão acostumadas a pagar 600, 700, 800 euros por uma bicicleta do dia a dia", afirmou. "Em muitos outros países, estaríamos falando de uma bicicleta de 100 euros comprada no supermercado".

A União Europeia limita a velocidade das bicicletas elétricas a 25 quilômetros por hora. Se elas andarem mais rápido que isso, são enquadradas como motocicletas, exigindo que os ciclistas usem capacete e os fabricantes tenham autorizações especiais.

Ainda assim, bicicletas mais velozes estão se tornando comuns na Alemanha, afirmou Hielke H. Sybesma, CFO do Accell Group, uma das maiores fabricantes de bicicletas elétricas da Europa.

"Na Alemanha já vemos bicicletas elétricas de alto desempenho", afirmou. "A média de idade dos usuários está caindo, especialmente no caso das bicicletas elétricas de alta performance".

A bicicleta usada por Marossek no trabalho tem um acelerador, diferentemente da maioria das bicicletas elétricas vendidas no varejo, mas sua velocidade é limitada a 21 quilômetros por hora.

Ela é conhecida como saltadora, e muda de rota dependendo do dia. Algumas vezes vai de bicicleta elétrica, outros de bicicleta convencional. Como tem que transportar caixas pesadas, ela afirmou que "algumas vezes, enfrentar uma subida pode ser exaustivo".

"As outras bicicletas geralmente fazem você se cansar", afirmou. "Notei a diferença porque às vezes sou obrigada a pedalar uma bicicleta comum”.

Não que não existam grandes desvantagens. Ela abriu um sorriso enquanto pedalava a bicicleta elétrica. "Essa aqui não nos mantém em forma".

Matéria originalmente publicada no jornal Diário do Comércio