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Painel eletrônico mostra a corrupção no sistema educacional mexicano

Um painel eletrônico gigante chamado de "medidor de abuso", na Cidade do México, no México, que, apesar de um orçamento para a educação saudável tem dilapidado escolas por causa de esquemas de corrupção.

Por Damien Cave, do The New York Times (Tradução: Eloise De Vylder)

Por todo o México, crianças começaram a voltar às aulas no início de mais um ano letivo - muitas vezes para encontrar prédios precários, sem água corrente, livros didáticos ou professores capacitados.

Investimento não é o problema. O México destina mais dinheiro para a educação, proporcionalmente ao PIB, do que o Brasil, Espanha e até a Suíça. Então, para onde vai esse dinheiro?

De acordo com um cálculo mostrado em um novo "abusômetro" --um painel eletrônico gigante colocado em um cruzamento movimentado da capital--, cerca de US$ 2,8 bilhões (R$ 6,2 bilhões) vão parar anualmente nos bolsos de 298.174 professores e administradores ausentes que recebem salários sem trabalhar.

"É o roubo do século, e acontece todo ano", diz Claudio González Guajardo, presidente do Mexicanos Primero, uma organização de defesa da educação responsável pelo painel. "A corrupção é em larga escala."

González, um crítico erudito com um ar profissional, vem condenando o desperdício com a educação há muito tempo, com uma variedade de provas. Dados da Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Econômico há muito identificam o mau desempenho do México na educação, com 93,3% do orçamento gasto com funcionários - mais do que em qualquer país membro da organização - enquanto as necessidades escolares básicas não são atendidas.

De acordo com o atual censo de educação do governo, quase um terço das escolas públicas do México não têm água potável. Cerca de 11% não têm eletricidade, e em algumas áreas indígenas de Chiapas e Oaxaca, os problemas de infraestrutura são bem piores.

Mas o "abusômetro" é uma crítica incomumente ousada e precisa. Com suas luzes ao estilo Times Square mostrando uma contagem "em tempo real" do dinheiro gasto com corrupção e desperdício desde o primeiro dia de aula em 17 de agosto, o grande luminoso é uma tentativa populista de protesto, 24 horas por dia, sete dias por semana, que usa a vergonha para espalhar a indignação.

Com um site e a hashtag #abusometro no Twitter, a campanha é mais um sinal de que a sociedade civil mexicana está se tornando mais sofisticada. E ela também enfatiza a divisão entre a classe média crescente e digitalizada - que espera transparência, decisões baseadas em dados e resultados rápidos - e a velha guarda do governo, que ainda depende, em grande parte, da confidencialidade e do papel.

"Os cidadãos aprenderam que a democracia oferece muitas novas formas para eles expressarem suas opiniões, até mesmo de maneiras enérgicas e assertivas", disse Rubén Gallo, professor de cultura latino-americana na Universidade de Princeton. "Isso, combinado com um código de honra latino, significa que constranger um político corrupto com invenções como o abusômetro é uma combinação perfeita do novo - consciência democrática - com o tradicional - um código de honra, no qual um inimigo pode ser humilhado publicamente."

O governo mexicano ainda não respondeu ao abusômetro, mas González diz que foi informado de que as autoridades estavam atentas. Os números que ele usou na verdade são do censo da educação conduzido por pesquisadores do governo antes de uma lei recente de reforma educacional; muitos professores fizeram forte oposição à lei, acampando na principal praça da Cidade do México durante semanas.

Agora, os dados que o governo compilou para ajudar a pressionar a aprovação da lei, que tem como objetivo aumentar a avaliação e o treinamento dos professores futuros, estão sendo usados para demandar que as autoridades deem um passo além, saneando o professorado agora.

Isso é claramente o que muitos pais mexicanos querem. Ao passar em frente ao painel em uma tarde recente depois de buscar seu filho de cinco anos na escola, Adriana Reyes, 35, disse estar otimista em relação às mudanças a longo prazo, mas acha que o governo precisa agir mais rápido para melhorar as escolas.

"Eles fazem alarde de todo o dinheiro gasto na educação, mas a qualidade nunca melhora", disse ela. Olhando para o abusômetro, que mostrava 440.186.899 pesos (mais de US$ 33 milhões –aproximadamente R$ 73,73 milhões) desperdiçados antes do final da primeira semana de aula, ela acrescentou: "a mudança está acontecendo. Mas é muito lenta."

Luis Urrieta Jr., professor de pedagogia e estudos latino-americanos na Universidade do Texas, disse que as autoridades mexicanas podem estar agindo sem alarde e confidencialmente porque o nível de transparência oferecido pelo censo da educação já é bem maior do que o de costume no México. Ele acrescentou que a burocracia educacional, mais do que os professores, precisa ser responsabilizada pela corrupção. Contudo, a burocracia também é necessária para implementar mudanças mais amplas, exigindo um equilíbrio delicado.

Alguns especialistas temem que uma ação muito dura e rápida possa prejudicar o projeto. Depois de décadas de nepotismo e patronagem, com empregos transferidos entre famílias - e algumas pessoas até mesmo recebendo salários de parentes mortos há muito tempo - cortar pessoas, especialmente nas áreas rurais, pode levar a outra leva de protestos que ameaçaria deixar todo o sistema escolar em um impasse devastador.

"Uma vez que se começa a expor coisas que são problemáticas, a instituição se torna mais vulnerável", diz Urrieta. "Eles provavelmente estão sendo muito cautelosos com o que está sendo revelado e como vão lidar com esses casos."

Como muitos no México, contudo, González está insatisfeito. Ele disse que viu o cronômetro da dívida pública norte-americana em Nova York anos atrás, e que o seu próprio abusômetro foi inspirado pela frustração e pela impaciência com um sistema que sempre parece deixar para amanhã o que deveria ter sido feito ontem.

Ele disse que o dinheiro gasto com professores e administradores que não fazem nada poderia ser usado para aumentar os salários dos professores bons; para construir 24 novas escolas por dia; ou para equipar todas as escolas secundárias do país com salas de aula cheias de computadores.

"Eles sabem - eles sabem que têm um problema gigantesco", disse González. "Eles só precisam de vontade política para mudar isso."

Matéria originalmente publicada no portal UOL Notícias