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Para serem bem-sucedidas, políticas de segurança precisam envolver a população

Opinião é de Gerard Martin, ex-consultor na área de segurança pública das prefeituras de Bogotá e de Medellín, cidades colombianas que até 2012 foram referências em políticas de redução da violência

Por Cidades Sustentáveis  

Especialista em segurança pública e governança, o francês Gerard Martin esteve este mês em São Paulo, onde participou do evento 'Urbanismo e Segurança Pública' promovido pela Arq. Futuro.

O encontro reuniu peritos sobre o tema e discutiu casos de sucesso na América Latina, em especial as políticas públicas desenvolvidas em cidades colombinas que até 2012 conseguiram reduzir seus índices de violência. A prioridade dada aos investimentos em cultura, educação e espaços de lazer foi um dos conceitos aplicados nesses casos bem-sucedidos, e que agora estão sendo replicados em diversas outras cidades latino-americanas, incluindo Recife e Fortaleza, que também enviaram representantes ao evento.

Diversos palestrantes chamaram a atenção para o fato de que, a partir de 2012, houve uma estagnação nos índices de segurança na Colômbia. Segundo eles, o problema ocorreu em função da descontinuidade administrativa que se seguiu ao período de avanços.

Foi durante o evento que Gerard Martin concedeu essa entrevista à reportagem do Programa Cidades Sustentáveis (PCS). Ex-consultor na área de segurança pública das prefeituras de Bogotá e de Medellín, ele destacou que as políticas, em especial nessa área, para serem bem-sucedidas, precisam envolver a população.

Martin, que atualmente é consultor de projetos de urbanização em Fortaleza, explicou que não se deve esperar resultados imediatos. “É preciso entender que esses são processos de médio e longo prazo e, por isso, requerem planejamento, foco e articulação entre os atores envolvidos”, afirmou.

PCS - Qual o papel da arquitetura e do urbanismo na dinâmica atual das cidades?

Gerard Martin – O urbanismo social apresenta uma proposta de conexão entre comunidades, Estado e investimento em políticas públicas, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade. Essa parceria tem impactos sociais, políticos, econômicos e ambientais, um caminho em que a arquitetura e a segurança pública podem trilhar juntas.

E qual a lógica para reverter um ambiente em contexto de violência urbana?

É preciso entender que esses são processos de médio e longo prazo, e por isso requerem planejamento, foco e articulação entre os atores envolvidos. Promover o acesso a oportunidades no âmbito da educação, cultura e mobilidade é o primeiro passo para recuperar a dignidade e espírito cidadão das pessoas. Em paralelo há uma atuação estrutural do gestor público no âmbito das instituições de justiça e investimento em infraestrutura. É preciso construir um projeto de cidade.

De que maneira o Estado pode colocar em prática essas transformações?

O avanço dos indicadores nos últimos 20 anos foi fundamental para entender a complexidade das questões que envolvem a violência urbana. No reconhecido caso colombiano, foi o enfoque na redefinição de um projeto moderno que levou a uma verdadeira transformação nos índices de violência e percepção da mesma, a aposta em uma gestão institucional racional, planejada e fortemente democrática onde a reconfiguração institucional e física foi um marco da reconstrução da cidadania.

Como garantir a manutenção das políticas de segurança, levando em conta a cultura política de descontinuidade administrativa que predomina na América Latina?

Sabemos que não existe fórmula mágica nesse sentido, mas o envolvimento das comunidades no desenvolvimento e ação das políticas é fundamental. Se as pessoas se sentem parte do processo, elas tendem a exigir ações dos governantes. Hoje no Brasil, a falta de confiança gerada pelo Estado é a maior dificuldade para a adesão da população aos programas e projetos.

Como você analisa o campo da segurança pública e quais são as características da violência urbana hoje?

Nos anos 70 a violência vinha de um contexto político. O crescimento rápido da população, assim como a proliferação de comunidades precarizadas, trouxe um aspecto mais social e relacionado com economias informais e ilegais. Houve uma inversão da violência, que passa também a ter um caráter moral. Aí entra a questão da integração das políticas de segurança e, novamente, trago o caso colombiano. Lá, essa integração, foi realizada.