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Preconceito persiste na cidade de São Paulo e pode ser traduzido em números

Dois terços dos paulistanos acreditam que negros têm menos oportunidades no mercado de trabalho. Esse é um dos dados da pesquisa “Relações Raciais na Cidade” divulgada pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência, em parceria com o Sesc.

Por Airton Goes, da Rede Nossa São Paulo

Passados 130 anos de vigência da lei que pôs fim formal à escravidão no Brasil, o preconceito e a discriminação contra os negros persistem. Em São Paulo, o problema é percebido pela maioria da população e pode ser traduzido pelos números da pesquisa “Relações Raciais na Cidade”.  

Divulgado nesta terça-feira (13/11) pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência, em parceria com o Sesc São Paulo, o levantamento revela, por exemplo, que dois terços dos paulistanos (66%) acreditam que pessoas negras têm menos oportunidades no mercado de trabalho do que as brancas. Para 27%, as oportunidades são as mesmas. 

Entre os entrevistados que se autodeclaram pretos e pardos a percepção de desigualdade no campo profissional é ainda maior: 73% deles sentem que têm menos oportunidades no mercado de trabalho e 21% dizem que são iguais. 

As diferenças são visíveis já no perfil da amostra, pois apenas 3% dos pretos e pardos pesquisados fazem parte da Classe A (pessoas de renda mais alta), enquanto entre os brancos esse índice é cinco vezes maior, ou seja, 15%. 

Os dados se invertem na base da pirâmide social, onde estão os mais pobres. Apenas 4% dos brancos entrevistados pertencem às classes D e E, percentual quatro vezes menor que pretos e pardos (12%). 

O perfil da amostra revela ainda que os brancos são mais escolarizados – 39% têm curso superior, contra 18% dos pretos e pardos – e possuem maior renda familiar – 41% recebem mais de cinco salários mínimo mensais, enquanto o índice é de 20% para pretos e pardos. 

Além de apresentar dados que comprovam a persistência do preconceito e da discriminação contra a população negra na cidade, a pesquisa revela ainda que o problema não está diminuindo. Ao contrário, sete em cada 10 paulistanos avaliam que a situação se mantém (40%) ou aumentou (30%) nos últimos dez anos. Outros 25% dizem que houve diminuição e 5% não sabem ou não responderam.  

Mais uma vez, a percepção de pretos e pardos sobre o tema é mais aguda. Para 77% deles, o preconceito e a discriminação aumentaram (39%) ou ficaram no mesmo patamar (38%). O percentual dos que consideram que houve redução é de 19%. 

Já entre os brancos, 23% acham que houve crescimento e 42% disseram que situação permanece igual. Para 29% deles, o problema diminuiu na última década.

Somando todo o universo da amostra e fazendo o recorte por faixa etária, a percepção de que o preconceito e a discriminação têm aumentado é maior entre os jovens de 16 a 24 anos (42%).  

Outro ponto abordado pela pesquisa “Relações Raciais na Cidade” é se há ou não diferença no tratamento de pessoas negras e brancas em diversos espaços e equipamentos públicos da capital paulista. Em seis dos oito locais avaliados, essa distinção é percebida por, pelo menos, 50% dos entrevistados. 

Shoppings e estabelecimentos comerciais, com 66%, e no trabalho, que registrou 62%, são os locais onde essa diferença de tratamento são mais perceptíveis para os paulistanos.  

O índice só fica abaixo de 50% no ambiente familiar (25%) e no local onde mora (45%). Porém, para os entrevistados que se autodeclaram pretos e pardos apenas o ambiente familiar, com 31%, situa-se nesse campo. Na outra ponta, 75% deles percebem diferença de tratamento em shoppings e estabelecimentos comerciais e 70% sentem o mesmo no ambiente de trabalho. 

Diante dos inúmeros dados que revelam a persistência do preconceito e da discriminação contra os negros, o poder público poderia desempenhar um papel importante para enfrentar o problema. 

Entretanto, para 77% da população de São Paulo a prefeitura “não tem feito nada” (27%) ou “tem feito pouco” (50%) para combater o preconceito e a discriminação na cidade. Na avaliação de 10% dos entrevistados, a administração municipal “tem feito muito”, enquanto 13% não sabem ou não responderam. 

Confira aqui a apresentação da pesquisa

Veja também as tabelas completas do levantamento

Os dados serão apresentados no Sesc Campo Limpo, às 14 horas, em evento público que conta também com um debate sobre o tema, além de atividade cultural. Tudo como forma de celebrar o Dia da Consciência Negra, que acontece na próxima terça-feira (20/11).   

Sobre a pesquisa 

Foram entrevistados 800 moradores de 16 anos ou mais da cidade de São Paulo. O intervalo de confiança é de 95% e a margem de erro máxima estimada é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados totais. 

Série “Viver em São Paulo”

A pesquisa “Relações Raciais na Cidade" integra a série “Viver em São Paulo”, que foi iniciada este ano e mensalmente tem divulgado dados sobre a percepção dos paulistanos em relação a temas importantes que afetam a vida na capital paulista.

Os levantamentos da série e os eventos mensais, que incluem divulgação dos resultados, debates e intervenções culturais sobre cada tema pesquisado, são promovidos pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência, em parceria com o Sesc São Paulo. 

Leia também: Preconceito persiste na cidade de São Paulo e pode ser traduzido em números 

Ouça a entrevista do professor da FGV Silvio Almeida e do coordenador de projetos da Rede Nossa São Paulo, Américo Sampaio, à Rádio CBN:  Sete em cada dez paulistanos apontam aumento do racismo nos últimos 10 anos 

Confira a repercussão na mídia:

Pesquisa revela que para 70% o racismo aumentou ou se manteve igual na cidade de São Paulo (SPTV)

Percepção sobre preconceito e discriminação aumenta nos últimos 10 anos (SBT)

Sete em cada dez paulistanos apontam aumento do racismo nos últimos 10 anos (CBN)

2/3 dos paulistanos percebem situações de racismo e discriminação em shoppings (ESTADÃO)

2/3 dos paulistanos percebem situações de racismo e discriminação em shoppings (METRÔ NEWS)

Sete em cada dez paulistanos acham que racismo se manteve ou cresceu (R7)

39% dos negros veem aumento no racismo em São Paulo em 10 anos (TV PREFEITO)

70% dos paulistanos dizem que racismo contra negros se manteve ou aumentou nos últimos 10 anos (G1)

Para paulistanos, discriminação racial é mais evidente em estabelecimentos comerciais (CASA VOGUE)

Para 66% dos paulistanos, negros têm menos chances (DCI)

60% dos paulistanos, e mais de 70% dos negros, percebem racismo na cidade (BRASIL DE FATO)

Consciência negra: o preconceito em São Paulo é revelado em números (REDE BRASIL ATUAL)

62% dos paulistanos percebem discriminação racial no trabalho (OBSERVATÓRIO DO TERCEIRO SETOR)

Preconceito contra negros cresceu na cidade de São Paulo (REDE TVT)

Brancos, ricos e idosos são as pessoas que menos percebem o racismo (REDE TVT)