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Quem é quem no vai e vem da cidade?

Desde 2016 pesquisando a relação entre deslocamentos e mobilidade nos centros urbanos, o LabCidades da FAU/USP nos convida a pensar um urbanismo que considere perspectivas múltiplas e integradas de gênero e raça

Por Ana Candida, do Programa Cidades Sustentáveis

Políticas de combate à desigualdade de gênero são uma premissa importante da Agenda 2030 na construção de sociedades mais justas e sustentáveis. Nessa direção, as cidades são espaços privilegiados para analisar a dinâmica feminina e sugerir soluções eficientes. 

No Brasil, o planejamento urbano vem avançando no debate sobre o direito à cidade e construção de processos mais democráticos de governança urbana, o que ainda não foi suficiente para efetivar políticas públicas que considerem diferenças e desigualdades no uso do território, para além da clivagem de renda. 

Dados compilados pela professora da Universidade de Madri e consultora da Unesco em Políticas de Igualdade de Gênero, Ines Sanchez de Madariaga (2009, 2010, 2013a, 2013b), oferecem algumas pistas sobre as diferenças na experiência urbana para homens e mulheres. As pesquisas apontam que uma mulher em trânsito é 25% mais propensa a realizar paradas entre sua origem e seu destino do que um homem. Entre aquelas com pelo menos um filho, o número médio de viagens realizadas é 23% maior do que uma mulher sem filhos. 

Ao mesmo tempo, mães levam e buscam os filhos na escola três vezes mais do que os pais. Responsáveis pelas tarefas de reprodução social, na família e na sociedade, as mulheres acabam sendo as mais afetadas pela ausência de equipamentos e serviços públicos adequados, situação agravada no caso das negras e moradoras de regiões periféricas.

Pensando então em deslocamentos cotidianos, quais são afinal as questões e demandas das mulheres sobre o uso do espaço urbano? Quais as soluções para se deslocar em um transporte público pensado segundo a lógica da produtividade? Essas são algumas das questões sobre as quais se debruça o LabCidade - Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade da FAU/USP. 

Com a proposta de um urbanismo que priorize a mobilidade sob uma perspectiva de gênero, o laboratório propôs o Seminário “Cidade, gênero e interseccionalidades” em parceria com o Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Os debates realizados entre os dias 28 de janeiro a 1 de fevereiro tiveram como objetivo principal uma reflexão que trouxesse o gênero e suas especificidades como categoria teórica e política para o urbanismo. 

Como usamos nossa cidade?

Considerando o espaço urbano como o cenário de relações e disputas sociais, fica ainda mais evidente como o gênero interfere nas diferentes formas de circulação e ocupação da cidade. Enquanto as mulheres andam mais a pé e utilizam mais caronas, os homens são mais comumente motoristas. Quando há um veículo na casa, a prioridade costuma ser do homem e de seu deslocamento para o trabalho. Enquanto isso, em sua maioria as mulheres são as responsáveis pelas dinâmicas de reprodução, como levar as crianças na escola, ir ao mercado ou ao posto de saúde para acompanhar um familiar. 

Essa Mobilidade do Cuidado contempla trajetos menos lineares e pouco atendidos por horários, rotas e estrutura do sistema de transporte público urbano. Além das restrições de mobilidade que sofrem as mulheres em função da insegurança, a própria estrutura não foi pensada para esse perfil de passageiro. Enquanto a dupla jornada da mulher exige uma rotina de viagens mais curta que a dos homens, mas com muito mais paradas, a dinâmica do transporte público foi pensada segundo o sistema de produção casa-trabalho-casa, ainda marcadamente masculino na sociedade.

Em uma perspectiva subjetiva, o debate das pesquisadoras reforça como as barreiras à mobilidade das mulheres e ao próprio espaço da cidade são atravessadas por sentimentos resultantes das experiências nessa cidade, que são diferentes entre os gêneros. Partindo desse pressuposto a proposta é utilizar o medo, sentimento compartilhado por todas as mulheres que circulam nas cidades, como categoria de análise para um olhar feminista da mobilidade.

Durante a mesa “Leituras e políticas do urbano com recorte de gênero”, a professora do Departamento de Sociologia da UAM-Iztapalap, Cidade do México, Paula Soto Villagrán desenvolveu a dicotomia entre a mobilidade experimentada pelos homens e por outros gêneros a partir das identidades. A aproximação recente do urbanismo com outras áreas do conhecimento, especialmente a Geografia, contribui muito com esse olhar sobre o espaço estruturante dessas identidades.

“A naturalização que fazemos do espaço é semelhante à do gênero, sempre como dado, um elemento estático, pouco ativo e provocante sobre nós. Se a urbanização não leva em consideração a mulher e outros gêneros dissonantes, a fixidez dos papéis sociais colabora para a invisibilidade da mulher na cidade. E ainda é assim que pensamos as cidades hoje. A dicotomia estabelecida pelas divisões modernas reforça essa exclusão feminina do espaço na oposição entre público e privado, casa e rua. Essas separações se somam aos complicadores e impedidores da mobilidade feminina”, defende a pesquisadora.

Origens e destinos em São Paulo

Realizada pela Companhia do Metropolitano de São Paulo há mais de 50 anos, a Pesquisa Origem e Destino oferece uma espécie de censo dos deslocamentos na cidade, com informações como os meios de transportes mais utilizados, tempo médio das viagens e motivação das pessoas a saírem de casa. 

A última publicação apontou um aumento no percentual de viagens diárias. Enquanto a população cresceu 7%, passando de 19,5 para 20,8 milhões de habitantes, as viagens totais diárias cresceram 9%, de 38,1 para 41,4 milhões. 

Entre 2007 e 2017 cresceu ainda o uso de metrô, trem, moto, automóvel, transporte escolar, táxis e outros aplicativos de transporte, além de um pequeno aumento no uso de bicicleta.