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“Toda percepção sobre o racismo é uma percepção sobre a desigualdade”

Avaliação é do professor Silvio Almeida, que participou do debate sobre os dados da pesquisa “Relações Raciais na Cidade”, junto com a militante Luciana Araujo. Segundo ele, não basta criticar o racismo, tem que criticar a desigualdade.

Por Airton Goes, da Rede Nossa São Paulo

Ao comentar os resultados da pesquisa “Relações Raciais na Cidade”, que evidenciam a persistência do preconceito e da discriminação contra os negros, o professor do curso de direito da Universidade Mackenzie e da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, Silvio Almeida, ponderou: “Toda percepção sobre o racismo é uma percepção sobre a desigualdade”. 

Segundo ele, que também é presidente do Instituto Luiz Gama, as duas coisas andam juntas no Brasil. Por isso, não basta as pessoas criticarem o racismo. “Têm que criticar a desigualdade”.  

As declarações de Almeida foram feitas no debate sobre os dados do levantamento, que foi promovido pela Rede Nossa São Paulo e Ibope Inteligência, em parceria com o Sesc São Paulo

Apresentada pela diretora de políticas públicas do Ibope Inteligência, Patrícia Pavanelli, a pesquisa de percepção revela, por exemplo, que dois terços dos paulistanos (66%) acreditam que pessoas negras têm menos oportunidades no mercado de trabalho do que as brancas. 

Confira aqui a apresentação da pesquisa.  

Veja também as tabelas completas do levantamento

“Perceber o problema, não significa que isso gere uma ação contrária ao racismo”, explicou Almeida, ao analisar os números do levantamento.  

Para o professor da FGV, não existe democracia possível num país com esse grau de racismo e desigualdade. 

Ao mencionar a atua situação política, ele afirmou que o “problema” da eleição – que resultou na escolha de um candidato que coleciona declarações racistas – não foi o WhatsApp ou as “fake news” (notícias falsas). “O problema é a falta de um sistema educacional de qualidade, que desenvolva o sentido crítico das pessoas”, explicou Almeida, antes de complementar: “Com o atual sistema educacional, estamos sujeitos a qualquer tipo de manipulação”.

O professor defendeu a necessidade de a sociedade brasileira repudiar qualquer tipo de violência que venha a ser cometida contra qualquer segmento da sociedade, sejam negros, mulheres, homossexuais... 

E, ao final, alertou o povo negro a ficar muito atento ao debate político e às propostas de ajustes econômicos que estão sendo colocadas.

Já a outra participante do debate, Luciana Araujo, destacou a visão da mulher sobre o problema. “As primeiras feministas do Brasil foram as mulheres negras, que resistiram aos estupros do homem branco e à separação das famílias, tendo em vista que seus filhos eram vendidos”, registrou ela, que é militante do Movimento Negro Unificado e integrante da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

Em sua fala, Luciana denunciou que o serviço de atendimentos às mulheres vítimas de violências sexual no Hospital Municipal do Jabaquara está sendo desmontado pela Prefeitura de São Paulo.

Ela abordou a violência cotidiana que atinge os negros das periferias e das favelas, e que só vira notícia quando assusta ou atinge pessoas que vivem em regiões nobres da cidade, além da questão das cotas no ensino superior: “Há uma parcela da classe dominante que não aceita que o outro tenha o direito de estar na universidade”. 

Realizado no Sesc Campo Limpo, o debate foi mediado pelo coordenador de projetos da Rede Nossa São Paulo, Américo Sampaio, e contou com perguntas e posicionamentos do público presente. 

 

Durante o evento, o Grupo de Teatro Clariô Clarianas fez uma intervenção artística sobre o tema, que foi bastante aplaudida pelos participantes. 

Leia também: Preconceito persiste na cidade de São Paulo e pode ser traduzido em números 

Ouça a entrevista do professor da FGV Silvio Almeida e do coordenador de projetos da Rede Nossa São Paulo, Américo Sampaio, à Rádio CBN:  Sete em cada dez paulistanos apontam aumento do racismo nos últimos 10 anos 

Confira a repercussão na mídia:

Pesquisa revela que para 70% o racismo aumentou ou se manteve igual na cidade de São Paulo (SPTV)

Percepção sobre preconceito e discriminação aumenta nos últimos 10 anos (SBT)

Sete em cada dez paulistanos apontam aumento do racismo nos últimos 10 anos (CBN)

2/3 dos paulistanos percebem situações de racismo e discriminação em shoppings (ESTADÃO)

2/3 dos paulistanos percebem situações de racismo e discriminação em shoppings (METRÔ NEWS)

Sete em cada dez paulistanos acham que racismo se manteve ou cresceu (R7)

39% dos negros veem aumento no racismo em São Paulo em 10 anos (TV PREFEITO)

70% dos paulistanos dizem que racismo contra negros se manteve ou aumentou nos últimos 10 anos (G1)

Para paulistanos, discriminação racial é mais evidente em estabelecimentos comerciais (CASA VOGUE)

Para 66% dos paulistanos, negros têm menos chances (DCI)

60% dos paulistanos, e mais de 70% dos negros, percebem racismo na cidade (BRASIL DE FATO)

Consciência negra: o preconceito em São Paulo é revelado em números (REDE BRASIL ATUAL)

62% dos paulistanos percebem discriminação racial no trabalho (OBSERVATÓRIO DO TERCEIRO SETOR)

Preconceito contra negros cresceu na cidade de São Paulo (REDE TVT)

Brancos, ricos e idosos são as pessoas que menos percebem o racismo (REDE TVT)