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As várias cidades de São Paulo

Análise dos dados do Mapa da Desigualdade da Cidade 2018 destaca os extremos, muitas vezes impensáveis, que convivem na capital paulista e a falta de acesso a bens e serviços básicos que afeta parte expressiva da população

Por Rede Nossa São Paulo

São Paulo é uma cidade de extremos supostamente conhecidos e muitas vezes impensáveis. A mesma metrópole reproduzida genericamente por sua mancha saturada de prédios e avenidas também abriga zonas rurais e uma vasta cobertura de Mata Atlântica, algo em torno de 30% de seu território total.
Nos 75 quilômetros que separam os distritos de Tremembé e Marsilac, nos limites norte e sul da capital, cachoeiras e fazendas de agricultura familiar destoam da imagem generalizada que os próprios moradores fazem do maior centro financeiro do país. Nesse longo e diverso corredor, aldeias indígenas se contrapõem ao vaivém apressado de carros e pessoas; ônibus e trens dão lugar a balsas que se apresentam como o meio de transporte mais adequado para a travessia de determinados trechos; rios limpos e liberados para banho correm livres da poluição borbulhenta do Tietê das marginais. 

Em outros sentidos, São Paulo também tem extremos que podem ser observados nas várias disfunções que entremeiam seus bairros e territórios. A falta de acesso a bens e serviços básicos atinge uma parte expressiva da população, e a oferta de infraestrutura urbana varia substancialmente de acordo com o lugar em que se vive na cidade. De modo geral, quanto mais se afasta do centro, maior a carência de recursos capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Isso é determinante, por exemplo, na disponibilidade de acervos de livros e espaços culturais, no atendimento das redes de saúde e ensino municipais, na oferta de equipamentos esportivos e de condições de moradia decentes, na inclusão digital e em tantos outros aspectos indispensáveis para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e sustentável.  

Um recorte aparente dessa realidade é apresentado no Mapa da Desigualdade de São Paulo, um trabalho que traz indicadores dos 96 distritos da capital paulista e aponta para a ruinosa distância socioeconômica entre as várias localidades do município. Um notório exemplo das diferenças regionais da cidade mais populosa do país pode ser feito pela taxa de emprego formal. Na Barra Funda, o distrito que apresenta o melhor desempenho neste indicador, são oferecidos 59,2 postos de trabalho para cada dez pessoas da população em idade ativa (com 15 ou mais anos de idade). Na Cidade Tiradentes, o pior distrito, a taxa é de 0,2 posto. A média municipal é de 4,3 postos. 

Confira aqui a apresentação do Mapa da Desigualdade

Veja também o estudo completo

Essa tendência se repete em muitos outros indicadores, que apresentam invariavelmente um enorme desequilíbrio entre o melhor e o pior distrito – o “desigualtômetro” que aparece nas páginas de cada tema ao longo desta publicação. Uma criança que mora em Pedreira, por exemplo, espera mais de 400 dias para conseguir uma vaga na creche local; em 70 distritos, essa expectativa se arrasta por mais de três meses. Na República, o melhor distrito, é de pouco mais de oito dias. 

A idade média ao morrer segue a mesma direção, ou seja, as chances de viver por mais tempo diminuem à medida em que caminhamos para a periferia. Entre o melhor e o pior indicador, do Jardim Paulista (81 anos de idade média) à Cidade Tiradentes (58 anos), isso representa uma diferença de 23 anos de vida a mais. É como se vivêssemos entre a Noruega e Serra Leoa, a um passo de um e de outro, separados apenas por algumas dezenas de quilômetros de ruas e avenidas tortuosas. 

Outro indicador sintomático na área de saúde é a gravidez na adolescência. No mesmo Jardim Paulista onde as pessoas vivem em média até os 81 anos, apenas 0,683 das gestantes têm menos de 19 anos. É um índice que poderia ser celebrado, não fosse ofuscado pelos dados dos locais que aparecem no final da lista: 17% das grávidas têm menos de 19 anos em Parelheiros; 16,26% em Cidade Tiradentes; e 16,04% na Brasilândia. Entre o melhor e o pior indicador, a diferença é de quase 25 vezes. 

Na área da cultura, a alta concentração de cinemas, teatros, bibliotecas e salas culturais no centro da cidade também nos leva a índices de países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, os indicadores de boa parte dos distritos periféricos nos transportam diretamente para lugar nenhum – ou para qualquer lugar totalmente desprovido de equipamentos de lazer e entretenimento. Dos 96 distritos da capital paulista, 52 não têm um centro cultural, casa ou espaço de cultura públicos ou particulares; 53 não têm cinemas; 59 não têm museus (incluindo particulares); e 36 não têm uma única biblioteca infanto-juvenil. 

Além das diferenças regionais

Além de apontar as discrepâncias territoriais da capital paulista, esses e outros dados também mostram que, em alguns temas, é possível identificar uma ausência generalizada de infraestrutura urbana e serviços básicos – e isso independe da localização e do perfil socioeconômico do distrito. É possível, ainda, observar que o melhor indicador não é necessariamente um bom indicador. Exemplo: na República, o distrito mais bem servido por linhas com ônibus acessíveis, apenas 9,6% dos veículos de cada linha que cruza seus limites são preparados para atender adequadamente cadeirantes e pessoas com deficiência. 

Longe dali, quatro distritos que apresentam alta concentração de domicílios em favelas tiveram uma melhoria importante neste indicador em 2018, na comparação com os dados de 2017. No Capão Redondo, o percentual de residências localizadas nesses aglomerados, em relação ao total de residências do distrito, caiu de 31,52% para 27,66%. Em números absolutos, isso significa 3.132 domicílios a menos em suas favelas. Em Cidade Líder, esse total foi de 2.800 domicílios; em Jaraguá, 3.486; e, na Cidade Ademar, 4.440. 

Os números são bastante expressivos. Porém, entender os motivos que levaram a reduções tão significativas não é uma tarefa tão simples. Isso exige pesquisa e análises aprofundadas, que respondam a algumas perguntas-chave: para onde foram os milhares de pessoas e famílias que moravam nesses locais? Será que elas melhoraram de vida? Será que hoje vivem em lugares que têm coleta de lixo, esgotamento sanitário, rede de água e energia?

Muito provavelmente, a resposta envolve mais de um fator. Pode estar nas desapropriações e remoções promovidas pela prefeitura no último ano, na ocorrência de incêndios que frequentemente fustigam esses locais ou em algum aspecto impossível de identificar na superfície de qualquer suposição. Outra explicação pode estar em uma eventual revisão de critérios na classificação e conceituação de favela ou em mudanças metodológicas promovidas pela fonte primária da informação, no caso a Secretaria Municipal de Habitação. De qualquer forma, a melhoria desse indicador nos quatro distritos não se traduz obrigatoriamente na melhoria da qualidade de vida das pessoas. 

Seguindo o mesmo entendimento, existem vários outros aspectos que exigem análises mais complexas e merecem ser estudados com profundidade. Por exemplo, por que distritos que têm características socioeconômicas e perfis de vulnerabilidade semelhantes apresentam indicadores tão diferentes? O que leva as gestantes da Vila Andrade e do Jardim Ângela a fazer muito mais consultas pré-natais do que as do Itaim Paulista e do Jardim Helena? Por que Cidade Dutra e Arthur Alvim têm proporcionalmente dez vezes mais equipamentos esportivos do que a Cachoeirinha e a Vila Andrade, em relação ao tamanho de sua população? 

Não são perguntas tão simples de responder. As respostas, por sua vez, podem revelar informações valiosas para o poder público, como a eficiência de uma política que deu resultados positivos ou, em contraposição, a vulnerabilidade até então invisível e não identificada de uma população. 
Nesse sentido, o Mapa da Desigualdade de São Paulo traz algumas reflexões que abrem espaço para novas análises e campos de pesquisa, uma vez que não se propõe a esgotar e a oferecer todas as respostas para os problemas relacionados à desigualdade na capital paulista.

No mais, o trabalho preenche uma lacuna em termos de difusão de informações públicas, amplia o alcance do conhecimento sobre os territórios e facilita a assimilação dos dados disponíveis. Ao contribuir para o entendimento de dinâmicas importantes da cidade, também se coloca como um instrumento para a elaboração de políticas públicas mais inclusivas e a construção de planos setoriais mais integrados. 

Trata-se, enfim, de uma valorosa ferramenta para a gestão e o planejamento municipal, que pode auxiliar os tomadores de decisão a identificar prioridades, carências e necessidades da população e seus distritos.
 
Em um município em que milhões de pessoas são separadas pelo acesso (ou a falta dele) a bens e serviços públicos fundamentais, colocar em evidência os dados oficiais e disponíveis é apenas o primeiro passo para que tenhamos uma cidade que esteja à altura de sua importância para o país e, principalmente, que ofereça qualidade de vida para todos os seus habitantes. Um lugar sem extremos tão distantes em termos socioeconômicos, mais acolhedor para os moradores e integralmente reconhecido pelo próprio poder público. 

O que é o Mapa da Desigualdade da Cidade

Elaborado anualmente 
desde 2012

Traz dados sobre os 
96 distritos da capital paulista

Aborda 56 indicadores 
nas várias áreas da administração pública

Utiliza fontes 
públicas e oficiais

Auxilia a gestão e o 
planejamento
municipal

Ajuda a identificar prioridades,
carências e necessidades
da população e seus distritos

Contribui para a elaboração 
de políticas públicas mais inclusivas 

Preenche uma lacuna 
na difusão de informações 

Amplia o conhecimento
sobre os territórios da cidade

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